Quando se fala em TDAH, muitas pessoas pensam apenas na dificuldade para manter a atenção. Entretanto, algumas conseguem passar horas concentradas em uma atividade interessante, a ponto de perder a noção do tempo e não perceber o que acontece ao redor.
Essa concentração intensa costuma ser chamada de hiperfoco. Embora possa contribuir para a realização de algumas atividades, também pode causar prejuízos quando a pessoa não consegue escolher onde concentrar a atenção ou interromper uma tarefa no momento necessário.
O que é o hiperfoco?
O hiperfoco é um estado de concentração intensa e prolongada em uma atividade. Ele pode acontecer durante jogos, pesquisas, trabalhos criativos, leituras, séries ou assuntos de grande interesse.
Durante esse período, a pessoa pode não perceber fome, sede, cansaço, mensagens recebidas ou a passagem das horas. Mesmo sabendo que precisa parar, ela pode ter dificuldade para abandonar a atividade e direcionar a atenção para outra tarefa.
O hiperfoco não é exclusivo do TDAH e, isoladamente, não confirma o diagnóstico. O DSM-5, Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais utilizado por profissionais da saúde para orientar a identificação dos transtornos mentais, não apresenta o hiperfoco como um critério diagnóstico. O documento descreve dificuldades persistentes de atenção, organização, controle dos impulsos e manutenção do esforço.
Como alguém com TDAH consegue se concentrar tanto?

No TDAH, a questão não é simplesmente ter ou não ter atenção. Pode existir dificuldade para controlar o foco de acordo com as prioridades e as exigências de cada situação.
Alguns fatores podem ajudar a compreender o hiperfoco:
- Regulação da dopamina: A dopamina participa de processos como atenção, motivação e percepção de recompensa. No TDAH, diferenças no funcionamento desse sistema podem dificultar a manutenção do interesse em tarefas pouco estimulantes. Isso não significa apenas que exista uma “falta de dopamina”, mas que sua regulação pode ocorrer de maneira diferente.
- Preferência por recompensas imediatas: Atividades interessantes, desafiadoras ou prazerosas oferecem estímulos rápidos. A atenção pode permanecer concentrada nelas, enquanto obrigações repetitivas ou com resultados distantes são adiadas.
- Dificuldade para mudar o foco: O problema também pode estar em interromper uma atividade e começar outra. Mesmo percebendo que precisa parar, a pessoa pode não responder adequadamente a esse sinal interno de mudança.
Por isso, alguém pode passar horas concentrado em um projeto de interesse e, ao mesmo tempo, ter dificuldade para iniciar uma tarefa doméstica, responder a uma mensagem ou organizar documentos.
Quando o hiperfoco causa prejuízos?
O hiperfoco pode se tornar problemático quando interfere nas necessidades básicas, nos compromissos e nos relacionamentos. Entre os principais sinais estão:
- Perder a noção do tempo.
- Esquecer-se de comer, beber água ou ir ao banheiro.
- Dormir tarde porque não consegue interromper a atividade.
- Deixar tarefas prioritárias acumularem.
- Perder horários, reuniões e prazos.
- Irritar-se quando alguém tenta interromper.
- Dedicar tempo excessivo a interesses e pouco tempo às obrigações.
- Ignorar sinais de cansaço e sobrecarga.
Interrupções repentinas podem gerar irritação ou frustração, especialmente quando a pessoa está muito envolvida na atividade. Isso pode causar conflitos familiares, sociais ou profissionais.
Familiares também podem interpretar a concentração como falta de interesse ou descaso. Entretanto, muitas vezes, a pessoa não está ignorando os outros de forma intencional. Ela realmente encontra dificuldade para perceber estímulos externos e mudar o foco.
O hiperfoco é um “superpoder”?
A concentração intensa pode ser útil em atividades criativas, projetos profissionais ou assuntos de interesse. Porém, chamá-la apenas de “superpoder” pode esconder os prejuízos que ela provoca.
Uma capacidade se torna realmente útil quando pode ser direcionada e interrompida de acordo com a necessidade. Se a pessoa perde compromissos, prejudica o sono ou abandona outras responsabilidades, o hiperfoco deixa de representar apenas produtividade.
O que pode ajudar a controlar o hiperfoco?
Algumas estratégias podem criar limites externos para a atenção:
- Definir um horário de início e término antes de começar.
- Usar alarmes para pausas, refeições e compromissos.
- Manter um relógio visível.
- Dividir atividades longas em blocos menores.
- Organizar primeiro as tarefas prioritárias.
- Combinar avisos com familiares ou colegas.
- Evitar atividades muito envolventes perto do horário de dormir.
- Anotar ideias para retomá-las posteriormente.
- Deixar água e lanches saudáveis em locais visíveis.
O objetivo não é eliminar a capacidade de concentração, mas aprender a direcioná-la sem comprometer outras áreas da vida.
Quando procurar uma avaliação?
É importante buscar ajuda quando a dificuldade para controlar o foco causa atrasos frequentes, privação de sono, conflitos, queda no desempenho ou abandono de responsabilidades.
Uma avaliação especializada considera o histórico da pessoa, a presença de outros sintomas e os prejuízos observados em diferentes ambientes. Isso ajuda a diferenciar o TDAH de outros fatores que também podem influenciar a atenção.
Se a forma como você administra a atenção está prejudicando sua rotina, agende uma consulta com a Dra. Jaqueline Bifano. Uma avaliação individualizada pode esclarecer os sintomas e orientar estratégias adequadas às suas necessidades.





