Muitas famílias percebem isso no dia a dia: a criança autista reclama muito de uma roupa “quente demais”, rejeita banho em determinada temperatura, parece sofrer mais com o calor ou, em outros casos, não demonstra incômodo mesmo quando o ambiente está muito frio.
Nessas horas, surge a dúvida: pessoas autistas sentem mais calor ou mais frio?
A resposta mais correta é: depende do perfil sensorial de cada pessoa. No autismo, podem existir diferenças na forma como o cérebro percebe e responde aos estímulos do ambiente, e isso inclui a temperatura. Por isso, algumas pessoas podem reagir de forma muito intensa ao calor ou ao frio, enquanto outras parecem perceber menos esses sinais.
A temperatura também faz parte da sensibilidade sensorial

De acordo com o DSM-5, o autismo pode incluir hiper ou hiporreatividade a estímulos sensoriais, com exemplos como aparente indiferença à dor, ao calor ou ao frio, além de respostas adversas a sons e texturas.
As Diretrizes de Atenção à Reabilitação da Pessoa com TEA, do Ministério da Saúde, também citam a percepção de temperatura como parte do sistema sensorial a ser observado na avaliação clínica.
Então o autista sente mais ou sente menos?
As duas coisas podem acontecer.
Algumas pessoas autistas apresentam hipersensibilidade, ou seja, sentem o calor, o frio ou a mudança de temperatura de forma mais intensa. Nesses casos, pequenas variações podem gerar grande desconforto. A criança pode reclamar muito da água do banho, se irritar com vento, recusar certos tecidos ou não tolerar ambientes muito quentes.
Outras apresentam hipossensibilidade, isto é, percebem menos esses estímulos. Elas podem parecer indiferentes a frio ou calor, demorar a perceber que estão desconfortáveis ou não reagir como seria esperado em situações de temperatura extrema. O DSM-5 inclui justamente essa possibilidade ao mencionar “aparente indiferença à dor/calor/frio”.
Isso não é exagero nem “manha”
Quando a criança autista recusa uma roupa, uma coberta, um alimento muito quente ou muito gelado, isso nem sempre é oposição. Muitas vezes, é uma resposta real do sistema sensorial.
Dessa forma, a sensibilidade a texturas, gostos, cheiros e temperaturas dos alimentos também é citada como um fator que pode afetar a alimentação. Isso mostra que a temperatura pode interferir não só no conforto corporal, mas também em atividades cotidianas, como comer, tomar banho, trocar de roupa e dormir.
Como isso aparece no dia a dia
Alguns exemplos comuns incluem:
- dificuldade com banho muito quente ou muito frio
- recusa de determinadas roupas por sensação térmica ou tecido
- sofrimento maior em dias muito quentes
- pouca percepção de que o corpo está com frio
- rejeição de alimentos por estarem quentes, gelados ou mornos demais
Esses sinais variam muito de uma pessoa para outra. O importante é observar padrões, e não comparar a criança com irmãos, colegas ou outras pessoas autistas.
Quando isso merece mais atenção
A sensibilidade à temperatura merece atenção especial quando:
- causa sofrimento frequente
- interfere no sono, na alimentação ou na higiene
- gera crises, irritabilidade ou recusa intensa
- expõe a criança a riscos, como não perceber frio ou calor excessivos
Nesses casos, vale conversar com profissionais que acompanham a criança. O cuidado com o autismo deve considerar também o perfil sensorial, porque ele impacta diretamente a funcionalidade e o bem-estar.
Como a família pode ajudar
Algumas medidas simples podem fazer diferença:
- observar quais temperaturas geram mais conforto ou incômodo
- testar roupas com tecidos e pesos diferentes
- evitar mudanças bruscas na água do banho
- respeitar preferências sensoriais sempre que possível
- antecipar situações de calor ou frio intenso
- não interpretar tudo como birra ou exagero
Mais do que “acostumar à força”, o ideal é buscar estratégias que reduzam sofrimento e aumentem previsibilidade.
Como vimos aqui, pessoas autistas podem reagir de forma diferente ao calor e ao frio. Mas a questão não é que “todo autista sente mais” ou “todo autista sente menos”. O que existe é uma diferença no processamento sensorial, que pode tornar a temperatura um estímulo muito mais intenso — ou, em alguns casos, menos percebido.
Com observação, acolhimento e orientação adequada, é possível adaptar a rotina e reduzir bastante o desconforto. Entender o perfil sensorial da criança é uma forma importante de cuidado.
Para acompanhar mais conteúdos sobre autismo, TDAH e saúde mental infantil, siga a Dra. Jaqueline Bifano no Instagram. Se a sensibilidade sensorial tem afetado a rotina do seu filho, uma avaliação especializada pode ajudar a orientar melhor esse cuidado.





