Pessoas autistas têm maior diversidade de gênero?

Por que pesquisas encontram uma proporção maior de pessoas trans, não binárias e de gênero fluido entre pessoas autistas? O autismo influencia a identidade de gênero? Ou pessoas autistas apenas se relacionam de outra maneira com as expectativas sociais sobre o que significa ser homem ou mulher?

Essas perguntas ainda não possuem respostas definitivas. Os estudos identificam uma associação entre autismo e diversidade de gênero, mas isso não significa que uma condição cause a outra.

Neste post, vamos entender o que as pesquisas observaram, conhecer as principais hipóteses estudadas e explicar por que a avaliação profissional precisa ser acolhedora, individualizada e livre de preconceitos.

O que significa diversidade de gênero?

A identidade de gênero corresponde à maneira como cada pessoa se reconhece em relação ao gênero. Ela pode se identificar como mulher, homem, não binária, agênero, gênero fluido ou utilizar outras formas para descrever sua experiência.

Uma pessoa trans possui uma identidade de gênero diferente daquela que lhe foi atribuída ao nascer. Já uma pessoa cisgênero se identifica com o gênero atribuído no nascimento.

Pessoas não binárias não se reconhecem exclusivamente como homens ou mulheres. Algumas podem sentir que sua identidade está entre essas duas categorias, fora delas ou que varia ao longo do tempo.

Identidade de gênero não é a mesma coisa que orientação sexual. A identidade está relacionada a quem a pessoa é. A orientação sexual se refere à atração afetiva ou sexual que ela pode sentir por outras pessoas.

O que as pesquisas têm encontrado?

Estudos realizados com diferentes grupos apontam que pessoas autistas apresentam maior diversidade sexual e de gênero quando comparadas à população não autista.

Isso significa que, proporcionalmente, pessoas trans, não binárias, agênero e de gênero fluido aparecem com maior frequência em pesquisas com participantes autistas.

Uma pesquisa brasileira publicada na revista Ciência & Saúde Coletiva destaca que as experiências relacionadas à sexualidade e ao gênero entre pessoas autistas são diversas e não devem ser reduzidas a estereótipos. Outro estudo brasileiro discute como essa interseção desafia padrões sociais e pode gerar uma dupla vulnerabilidade: a pessoa enfrenta preconceitos relacionados tanto ao autismo quanto à identidade de gênero.

Os resultados, porém, não permitem afirmar que a maioria das pessoas autistas apresenta diversidade de gênero. A associação indica uma proporção maior em comparação com outros grupos, e não uma característica presente em todo o espectro.

Os percentuais também variam conforme a idade dos participantes, o tamanho da amostra, a definição utilizada e a forma como as perguntas são feitas.

Algumas pesquisas investigam exclusivamente pessoas trans. Outras incluem diferentes identidades não binárias. Há ainda estudos que avaliam sentimentos de inconformidade com os papéis tradicionais de gênero, o que não significa necessariamente que a pessoa seja trans ou não binária.

Por isso, os dados precisam ser interpretados com cuidado.

O autismo causa uma identidade de gênero?

Pessoas autistas têm maior diversidade de gênero

Não há evidências de que o autismo transforme alguém em uma pessoa trans, não binária ou de gênero fluido.

Também não é adequado tratar a diversidade de gênero como um sintoma do Transtorno do Espectro Autista. Uma pessoa autista possui diferentes aspectos em sua identidade, incluindo personalidade, história familiar, cultura, afetividade, sexualidade e gênero.

O autismo pode participar da maneira como a pessoa percebe e comunica suas experiências, mas não invalida aquilo que ela diz sentir sobre si mesma.

Da mesma forma, identificar-se como trans ou não binário não significa que a pessoa seja autista. As duas experiências podem existir de forma independente ou aparecer na mesma pessoa.

Por que essa associação pode acontecer?

Ainda não existe uma explicação única. As hipóteses estudadas não devem ser apresentadas como causas comprovadas.

Uma relação diferente com as normas sociais

Uma das hipóteses é que algumas pessoas autistas se sintam menos orientadas pelas convenções sociais relacionadas ao gênero.

Desde a infância, a sociedade costuma ensinar quais roupas, brincadeiras, interesses e comportamentos seriam esperados de meninos e meninas. Pessoas autistas podem perceber essas regras como arbitrárias, confusas ou pouco relevantes.

Isso não significa que autistas sejam incapazes de compreender as normas sociais. Algumas podem conhecê-las muito bem, mas não enxergar motivo para organizar a própria identidade a partir delas.

Essa relação diferente com as expectativas sociais poderia facilitar o questionamento de categorias tradicionais de gênero.

Maior reflexão sobre a própria identidade

Outra possibilidade é que algumas pessoas autistas analisem de maneira intensa suas experiências internas.

Elas podem dedicar bastante tempo à tentativa de compreender por que se sentem diferentes, quais situações provocam desconforto e quais palavras descrevem melhor aquilo que vivenciam.

Ao encontrar informações sobre identidade de gênero, a pessoa pode reconhecer sentimentos que antes não conseguia nomear. Nesse caso, o conhecimento não cria uma nova identidade. Ele oferece recursos para compreender e comunicar algo que já estava sendo sentido.

Essa hipótese também não se aplica a todas as pessoas autistas. A capacidade de reflexão, comunicação e autopercepção varia muito dentro do espectro.

Menor identificação com papéis tradicionais

Algumas pessoas podem não se reconhecer nos modelos tradicionais de masculinidade e feminilidade. Isso pode ocorrer porque seus interesses, comportamentos, expressões corporais ou formas de se relacionar não correspondem ao que a sociedade espera do gênero atribuído no nascimento.

Não seguir um papel tradicional, entretanto, não torna automaticamente alguém trans ou não binário.

Um menino pode gostar de atividades consideradas femininas e continuar se identificando como menino. Uma menina pode rejeitar padrões de feminilidade e continuar se reconhecendo como menina.

A identidade de gênero não pode ser determinada apenas pelas roupas, pelos brinquedos, pelos interesses ou pela maneira de agir.

Maior acesso a informações e comunidades

A internet permitiu que muitas pessoas encontrassem palavras para descrever suas experiências. Comunidades formadas por pessoas autistas e LGBTQIAPN+ também podem favorecer o acesso a informações e relatos semelhantes.

Ao perceber que outras pessoas vivem experiências parecidas, o indivíduo pode se sentir mais seguro para questionar expectativas sociais e expressar sua identidade.

Essa maior visibilidade também pode influenciar os resultados das pesquisas. Pessoas que já participam dessas comunidades podem demonstrar maior interesse em responder a estudos sobre autismo e diversidade de gênero.

Identidade de gênero não é doença

Ser trans, não binário ou de gênero fluido não representa, por si só, um transtorno mental.

O DSM-5 esclarece que a não conformidade de gênero não constitui uma doença. O diagnóstico de disforia de gênero está relacionado à presença de sofrimento clinicamente significativo, e não à identidade da pessoa. Nem toda pessoa trans ou de gênero diverso apresenta disforia.

O sofrimento pode estar associado ao desconforto com determinadas características corporais. Também pode ser intensificado pela rejeição familiar, pelo preconceito, pela discriminação ou pela impossibilidade de expressar a própria identidade com segurança.

Por isso, o objetivo da avaliação não deve ser procurar uma doença onde existe diversidade.

Como deve ser a avaliação de uma pessoa autista com diversidade de gênero?

A avaliação precisa oferecer espaço para que a pessoa fale sobre suas experiências sem ser pressionada a apresentar respostas imediatas.

Em vez de tentar confirmar ou negar rapidamente uma identidade, o profissional pode ajudar a pessoa a compreender:

  • Como ela percebe o próprio gênero.
  • Há quanto tempo esses sentimentos estão presentes.
  • Quais situações provocam conforto ou desconforto.
  • Como prefere ser chamada.
  • Se deseja utilizar outro nome ou pronome.
  • Como a família e o ambiente social reagem.
  • Se existem sintomas de ansiedade ou depressão.
  • Quais formas de apoio são necessárias.

A comunicação também precisa ser adaptada. Algumas pessoas autistas respondem melhor a perguntas diretas e concretas. Outras precisam de mais tempo, recursos visuais, exemplos ou possibilidades diferentes de resposta.

Dificuldades de comunicação não significam ausência de identidade. Uma pessoa que utiliza comunicação alternativa ou necessita de maior suporte continua tendo direito à escuta e ao respeito.

O que precisa ser evitado?

O profissional e a família não devem presumir que a identidade de gênero é apenas uma confusão provocada pelo autismo.

Também é inadequado afirmar que um interesse intenso pelo tema necessariamente representa hiperfoco ou rigidez cognitiva. A pessoa pode pesquisar bastante porque está tentando compreender uma experiência importante de sua vida.

Por outro lado, uma avaliação acolhedora não significa tirar conclusões apressadas. É possível oferecer respeito, utilizar o nome e os pronomes solicitados e, ao mesmo tempo, acompanhar a pessoa de maneira cuidadosa e individualizada.

O processo não deve partir da intenção de convencer a pessoa a ser cisgênero, trans ou não binária. O objetivo é compreender suas necessidades e reduzir o sofrimento.

Duas formas de diversidade podem coexistir

Uma pessoa pode ser autista e trans. Pode ser autista e não binária. Também pode ser autista e cisgênero.

Nenhuma dessas identidades diminui a validade da outra. O diagnóstico de autismo não retira da pessoa a capacidade de perceber, questionar e expressar quem é.

As pesquisas ainda precisam avançar para explicar melhor essa associação. Enquanto não existe uma resposta única, o cuidado deve se apoiar na escuta, no respeito e na compreensão de que tanto a neurodiversidade quanto a diversidade de gênero fazem parte da variedade das experiências humanas.

Para acompanhar outros conteúdos sobre autismo, desenvolvimento e saúde mental, siga a Dra. Jaqueline Bifano no Instagram.

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