Uma criança que prefere brincar sozinha, não se aproxima dos colegas ou recusa convites pode parecer desinteressada em fazer amigos. Mas, no autismo, aquilo que vemos por fora nem sempre revela o que está acontecendo por dentro.
Muitas pessoas autistas desejam construir amizades, compartilhar interesses e sentir que pertencem a um grupo. A dificuldade pode estar menos na vontade de se relacionar e mais em compreender como iniciar, desenvolver e manter essas relações.
Quer entender mais sobre o tema? Então acompanhe este texto até o final. Boa leitura!
Dificuldade para se aproximar não significa falta de interesse
O DSM-5, Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, aponta que o autismo pode envolver dificuldades persistentes na comunicação e na interação social.
Na prática, isso pode aparecer na forma de pouca iniciativa para conversar, dificuldade para perceber sinais não verbais ou dúvidas sobre o momento adequado de entrar em uma brincadeira.
A criança pode, por exemplo, querer participar, mas não saber como se aproximar. Além disso, as formas de tentativas de aproximação, como observar os colegas de longe, falar repetidamente sobre alguém ou tentar criar proximidade compartilhando um assunto de seu interesse, podem não ser muito bem entendidas por outros.
No entanto, é sempre importante reforçar a ideia do espectro, onde diferentes pessoas com diferentes níveis de autismo trarão comportamentos distintos — inclusive quando se trata de fazer novos amigos.
O medo da rejeição também pode provocar afastamento
Pode acontecer de uma criança autista tentar se aproximar de outras pessoas, mas serem ignoradas ou até ridicularizadas. Depois dessas experiências, evitar novas interações pode se tornar uma forma de proteção.
Nesse caso, dizer que a criança “não quer ter amigos” pode esconder sentimentos como insegurança, vergonha ou medo de errar. Ela pode desejar uma amizade, mas acreditar que não conseguirá construi-la ou que será rejeitada novamente.
Por isso, é importante observar mudanças de comportamento. Quando uma criança que demonstrava interesse pelos colegas começa a se isolar, ficar triste após a escola ou evitar falar sobre suas relações, pode existir algum sofrimento que precisa ser acolhido.
Socializar também pode ser cansativo

Conversar exige acompanhar palavras, expressões faciais, mudanças de assunto, ironias e regras sociais que raramente são explicadas. Para algumas pessoas autistas, processar todas essas informações demanda bastante energia.
Ambientes barulhentos, cheios ou imprevisíveis também podem aumentar o desconforto. Assim, recusar uma festa ou preferir ficar sozinho depois de um período de convivência não significa necessariamente rejeitar as pessoas. Pode ser apenas uma necessidade de descanso e regulação.
O site Autismo e Realidade destaca que muitas amizades entre pessoas autistas se desenvolvem a partir de interesses em comum e que o tempo necessário para recuperar a energia social deve ser respeitado.
Amizades podem ter formatos diferentes
Nem toda amizade precisa envolver conversas frequentes, grandes grupos ou encontros constantes. Algumas pessoas autistas preferem relações individuais, contatos menos frequentes ou amizades construídas em torno de um interesse compartilhado.
Há também quem se comunique com mais tranquilidade pela internet ou demonstre afeto de maneiras discretas. Permanecer perto de alguém, enviar informações sobre um assunto específico ou dividir um objeto de interesse podem ser formas importantes de criar conexão.
É igualmente possível que uma pessoa autista realmente prefira ter poucos amigos e se sinta bem dessa maneira. O objetivo não deve ser obrigá-la a corresponder a uma expectativa social, mas compreender se existe uma escolha confortável ou uma dificuldade que está provocando sofrimento.
Como oferecer apoio sem pressionar?
Em vez de perguntar repetidamente por que a criança não tem amigos, vale criar oportunidades de convivência mais previsíveis e relacionadas aos seus interesses. Atividades em grupos menores costumam facilitar a aproximação e diminuir a sobrecarga.
Também é possível conversar de maneira clara sobre situações sociais, ajudar a identificar sinais de interesse ou desinteresse e ensinar formas respeitosas de iniciar uma interação. Esse apoio deve acontecer sem críticas, comparações ou tentativas de transformar a personalidade da criança.
Mais importante do que ter muitos amigos é poder construir relações seguras, respeitosas e significativas. Quando há sofrimento, isolamento intenso ou dificuldade para compreender o que está acontecendo, uma avaliação especializada pode ajudar a identificar as necessidades individuais e orientar o acompanhamento.
Caso tenha mais dúvidas ou precise de apoio para o seu filho, agende uma consulta com a Dra. Jaqueline Bifano.





