Quando uma família recebe o diagnóstico de autismo, ela não passa a lidar apenas com terapias, escola, rotina e adaptações. Muitas vezes, também precisa enfrentar comentários desinformados, julgamentos e frases que machucam.
Algumas falas parecem simples para quem diz, mas podem desregular profundamente um familiar de uma pessoa autista. Elas aumentam culpa, insegurança e sensação de solidão em quem já está tentando compreender, acolher e cuidar da melhor forma possível.
Neste post, vamos falar sobre frases que não devem ser ditas a familiares de autistas e mostrar formas mais empáticas de abordar o tema.
“É falta de limite”

Essa é uma das frases mais comuns e também uma das mais dolorosas. Quando alguém diz que o comportamento da criança autista é “falta de limite”, ignora todo o funcionamento neurológico envolvido no autismo.
Crises, dificuldades com mudanças, hipersensibilidade sensorial, seletividade alimentar, resistência a certos ambientes e dificuldades de comunicação não são simplesmente resultado de permissividade dos pais.
Uma forma mais respeitosa de abordar seria: “Imagino que algumas situações sejam muito desafiadoras. Tem algo que eu possa fazer para ajudar?”
“Na minha época isso não existia”
Essa frase costuma invalidar tanto o diagnóstico quanto o esforço da família. O autismo sempre existiu, mas por muito tempo foi pouco reconhecido, mal compreendido ou confundido com outros quadros.
Hoje há mais informação, mais acesso a avaliações e maior conhecimento sobre o espectro. Isso não significa que o autismo “surgiu agora”, mas que estamos aprendendo a identificar melhor.
Uma forma melhor de falar seria: “Eu não conhecia muito sobre autismo, mas quero aprender.”
“Vai passar com a idade”
O autismo não é uma fase. É uma condição do neurodesenvolvimento que acompanha a pessoa ao longo da vida, embora suas manifestações possam mudar com o tempo.
Dizer que “vai passar” pode fazer a família se sentir exagerada por buscar apoio. Também pode atrasar intervenções importantes, especialmente quando a criança precisa de adaptações, acompanhamento e estratégias específicas.
Uma frase mais empática seria: “Como vocês estão acompanhando esse processo? Posso ajudar de alguma forma?”
“Ele é muito inteligente para ser autista”
Essa frase parte de uma ideia equivocada: a de que autismo e inteligência seriam incompatíveis. Pessoas autistas podem ter diferentes perfis cognitivos. Algumas apresentam altas habilidades em certas áreas, outras têm dificuldades importantes, e muitas têm um perfil bastante irregular.
A inteligência não anula o autismo. Uma criança pode ser muito inteligente e, ainda assim, ter dificuldades sensoriais, sociais, emocionais ou de comunicação.
Uma forma mais adequada de dizer seria: “Ele tem habilidades muito interessantes. Como posso entender melhor as necessidades dele?”
“Mas ele fala”
Falar não significa não ser autista. Muitas pessoas autistas falam, estudam, trabalham, se comunicam e ainda assim enfrentam dificuldades importantes.
A comunicação não envolve apenas fala. Ela também inclui compreender contextos, interpretar linguagem não verbal, lidar com conversas sociais, expressar emoções e entender sutilezas. Uma criança pode falar bem e ainda precisar de suporte.
De acordo com o DSM-5, o autismo envolve dificuldades persistentes na comunicação e interação social, além de padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades. Por isso, o diagnóstico não depende apenas da presença ou ausência de fala.
Uma abordagem melhor seria: “Eu entendo que falar não significa que tudo seja fácil. Quais são as principais dificuldades dele?”





